quarta-feira, 3 de novembro de 2010

um ode à mediocridade;

Depois de ser bombardeada de notícias e artigos preconceituosos, xenofóbicos e completamente sem pudor e respeito algum, me sinto obrigada a questionar: como o ser humano pode ser tão nojento? Sentada em frente ao computador, encarando o clarão do bloco de notas vazio, continuo a pensar. Será mesmo de tamanha grandiosidade essa opção que temos de sermos seres pensantes? Quantas pessoas, de fato, aproveitam dessa condição?

A retórica que me perdoe, mas sabemos onde esse texto irá acabar.
Só não sei de quem é culpa.

Poderia ser do estado, da política, da religião, do ensino, da família, da vida, do mundo, da cidade, do universo, do sol, da lua, das estrelas, do mar, dos grãos de areia, de Deus, do pai, do filho, do espírito santo.

De todo mundo e de ninguém, ainda assim não faria diferença.

Estará alguém ainda se questionando sobre isso?

É mais fácil ser medíocre.
É mais fácil ser hipócrita, é mais simples.



É mais fácil ir dormir e parar de acreditar que as coisas estão melhorando.
Isso sim.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

notre histoire;

Eu estava lá. Perdida no meio daquele mundo vazio, só. A neblina me obrigava a manter os olhos apertados para tentar enxergar o próximo passo. O vento bagunçava meu cabelo e me arrepiava ainda mais de frio. Foi quando minha mão encostou em algo...

Minha resposta, o maior calafrio que já havia sentido. O calor subindo dos dedos dos pés até o peito, o coração. Tateei um pouco mais a frente e senti de novo. - O que era isso? - Apertava os olhos de novo, mas não via nada além daquele véu branco que cobria a paisagem. Estendi o outro braço para decifrar o enigma.

Foi neste momento, exatamente nesse instante, em que me apaixonei.
Lá estava você, abrindo os braços para mim também. No laço do abraço me aqueci, me esqueci e me fiz uma nova mulher. O véu branco nos envolvia, agora como música, agora como uma doce melodia.

Nós estávamos juntos desde o início. Juntos nessa história a escrever.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

ao anoitecer;

Apago a luz do dia para viver a escuridão
Deixo clara somente a imaginação
Me fecho

Ao anoitecer, respiro aliviada
As cortinas conversam com o vento
Voam vagarosamente

As estrelas gritam caladas
Ao longe, se desesperam, uma após a outra
Não se acendem mais

Abro os olhos e a claridade me enche
Transbordando cada pedaço do meu espírito
Como sonhos diferentes a cada manhã

Me abro ao céu
Deixo escorrer a lágrima, transformo-as em nuvem
Me deixe brilhar



quinta-feira, 29 de julho de 2010

velha infância;

O sinal ficou vermelho. Conseguia me lembrar do sangue derramado na faixa de pedestres, como se tivesse vivido aquela cena. A lembrança ainda me marcava.

Quando pequena afirmava, com total precisão, que morreria cedo. Dizia à quem quisesse ouvir:
- Eu? Eu sei que vou morrer cedo, vinte e poucos, é como se soubesse desde que abri os olhos pela primeira vez.

O sinal permanece vermelho e tomo mais um gole de água. Respiro fundo para que entre mais vida em meus pulmões. Para que esta magia amedronte a morte que, talvez, já esteja dentro de mim.

Me auto-sabotei na infância, parece irônico, mas peço - todos os dias - antes de dormir, para que não me falte ar. Essa lembrança ainda me assusta, confesso. Mamãe me dizia que se eu não contasse meus medos, eles se tornariam realidade... Contei ao meu diário, não adiantou. Registro aqui e espero mais um dia nascer.

Como é bom, como é bom estar viva!

quarta-feira, 21 de julho de 2010

mais sonhos;

Será que foram eles que se perderam no tempo? Ou será que eu que não estou me esforçando para ver entre as frestas da memória? Desisto. Não vejo mais razão, não alimento o passado, pois o que me interessa é o que está por ser escrito ali, duas páginas à frente.

Talvez tenha sido eu quem levantou e caminhou sozinha primeiro. Não quis olhar para trás, eu sei.. Nunca disse que era corajosa, as pessoas simplesmente acham isso no meu olhar. Engraçado reabrir os baús, tirar o pó do quadro e enxergar de novo o que eu fui, o que escolhi ser. Ora, e não é que quando me olho no espelho hoje, ainda não me reconheço? Acho que é questão de tempo, de novo esse tal de tempo. Através do espelho me vejo, mudada, mas ainda sou rascunho.

Rabisco coisa ou outra num caderno vermelhocapadura que poderia chamar de diário. Anseio reler os outros tantos cadernos por onde passaram minhas ideias. Tenho a impressão de que alguns sonhos caem da mochila no meio do caminho.

Minha mochila está para desfazer a costura das alças, mas continuo guardando sonhos grandes nela. Para ser sincera, sonhos cada vez maiores.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

o toque;

O melhor jeito que encontrei de viver é esse.
Com meus dedos entrelaçados nos teus.
Confundindo minhas pernas com as tuas, durante a noite.
Entrando na concha que me acolhe de qualquer medo.

É o carinho, o toque.

O toque que me desperta.
O toque que me aconchega, me faz adormecer.
Seu toque aveludado, tranquilo, seguro.
Me enche a alma, me arrepia os pêlos do corpo.
Me faz sorrir.

Je veux plus sourires.
Toujours.

a volta;

Eram longos corredores brancos. Não diferenciava com facilidade o que era parede e o que era porta, era tanta claridade que me fazia apertar os olhos. Fechei-os. Segurei nas mãos do moço que me acompanhava e fui, imaginando tudo que estava ao redor - com um certo tom de deboche, confesso - até que chegamos.

Sentei na cama, afofei os travesseiros e me encostei. Procurei pelo controle da televisão nas gavetas, nada. Apertei aquele botão que ficava pendurado do meu lado, nada. Pensei em gritar, desisti. A luta começou ali. Eu e ela, cara a cara de novo.

Agora era ela quem debochava, segurava o riso e me olhava nos olhos. Me lembrava daquele olhar de outros carnavais. Me intimidava, me fazia titubear antes de falar. Mas engoli a seco e disse. Disse a ela tudo que tinha acontecido até ali, tirei todas as palavras que estavam nos bolsos da calça, dentro do casaco, palavras amassadas, palavras que havia guardado por muito tempo. Ousei levantar para pegar a bolsa, mas ela segurou meus braços, me impedindo. Não sei ao certo quanto tempo ficamos naquela posição.

Ela me segurando. Eu me apoiando nela.

A única coisa que consigo recordar é o som da chuva lá fora, caindo forte sobre o teto dos carros e fazendo um barulho que assustava, mas não a mim, não mais.

Fomos interrompidas pelo telefone. Atendi e resolvi o assunto para poder logo voltar ao momento em que paramos, mas quando dei por mim estava só de novo. Respirei fundo, sentei na cama. O controle estava debaixo do travesseiro, liguei a televisão.

Reparei numa fresta de luz amarela que entrava pelos vãos da cortina da janela.
Era o sol.
Finalmente ele tinha voltado.